Moizita

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Nome: Nyx
Localização: Guimarães, Portugal

I'm unique. Just like everyone else.

Agradecimentos

A todos aqueles que, apesar de tudo, me apoiam. A ti, porque és a única pessoa que sabe evitar as minhas paranóias e acreditas em mim o suficiente para me fazeres acreditar também um bocadinho. Ao teu colo, ao teu cheiro, a todos os nossos momentos. Amo-te.
A essas pessoas felizes que são a única razão pela qual me enfio num edifício feio e cinzento que parece um hospital psiquiátrico, 5 dias por semana. Aos jantares em que alguém come mais do que os outros todos juntos. Aos jogos de cartas em que acabamos sempre com dores de barriga de tanto rir. Às viagens, físicas e espirituais. Às conversas, aos ombros amigos. Aos abraços a que tento sempre fugir. às pessoa com quem brincava aos Playmobils, que ainda hoje se lembram das melhores formas de me fazerem sorrir. A todos os verdadeiros amigos. E aos outros de que por vezes me esqueço. a>

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Alma - Parte X
Sexta-feira, Outubro 05, 2007

Espero que estejas grávida. Já reparei que os teus seios mudaram e o teu estômago não parece tão liso e suave como habitualmente.

Espero que sim. Leio nos teus olhos uma criança que se encontra dentro de ti. É um rapaz, sabes? E vai ser corajoso, como o homem que ajudou a dar-lhe vida. Vejo-o dentro de ti. Ao contrário do que tu gostarias, não tem os meus olhos negros. São pequeninos, como os teus, verdes e misteriosos. Terá aquele olhar cativante que me prendeu a ti. É irrequieto, ele. Esperam-te muitas impaciências e preocupações.

Sim, digo-te esperam-te e não esperam-nos. Não, não é que eu não deseje essa criança, tu é que não queres que a deseje. Partirás, mais cedo ou mais tarde, com o receio de dares ao teu filho um pai como eu. Não te vais dignar a deixar um bilhete. É tipicamente teu não te preocupares, é tipicamente teu fugires sem avisares ninguém.

Como no dia em que o rapaz foi concebido, lembras-te? Desapareceste de casa, tu, que eras tão frágil e procurei-te toda a noite. Fui dar contigo nas docas, com os pés submersos e trouxe-te para casa. Apesar dos teus olhos pedirem desculpa a todo o momento, não conseguiste proferir uma palavra.

O miúdo é bonito. Tem um sorriso engraçado e vai ser bom músico. Pelo menos que para isso os meus genes sirvam. Olha, parece que não vais gastar dinheiro em chupetas... chucha no dedo, ele, nos dedos longos como os meus. Deixar-lhe-ei o meu piano como herança. Por favor, dá-lhe a mesma inspiração que um dia me deste a mim.

Ama-o muito, sim? Ama-o como um dia me amaste a mim, se não ainda mais.

Mas não vejas nele aquilo que vês em mim. Ele não o merece.
E se um dia lhe falares dessa figura, dessa pessoa, o PAI, não lhe digas que me deixaste porque já não me amavas. Diz-lhe que fui um anjo. E que, como todos os anjos, não pude ficar na Terra.

Porque não ficarei. Assim que me abandonares tornar-me-ei realmente num anjo e serei perpetuamente feliz, porque te pude conhecer e tornar a minha vida plena.

Não te sintas culpada quando leres estas linhas, que só receberás depois da tua partida. Tudo estava já destinado a ser assim e, se eu me resignei com esta sorte, tu nada poderias fazer para mudá-la, por muito que me amasses.

Rogo-te apenas um último pedido: chama-lhe Gabriel. Para que também ele seja um anjo.


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Final. E provavelmente o final do blog.
Alma - Parte IX

Ultimamente, noto-te estranha.

Pareces-me permanentemente distante, a tua mente sempre nalgum lugar remoto a que eu não consigo ter acesso.

Jazes, indiferente a tudo, ao meu toque, ao som das minhas composições, ao timbre da minha voz, à luz que incide sobre o teu corpo delicado. Jazes assim, eternamente estagnada, como um cadáver abandonado pelo ocaso.

Tenho saudades da tua alegria, minha Alma, da forma como me olhavas da ombreira da porta e sorrias, enquanto eu, furioso de amor, te tocava as mais inúmeras cadências.

Ultimamente, noto-te estranha.

Macambúzia, arrastas-te pelo teu palácio sem saber onde te diriges, foges de tudo o que te rodeia, como se tudo te maçasse e aborrecesse.

Só o teu olhar permanece. Esse teu olhar penetrante, esse teu olhar que me controla, esse olhar que nunca me deixará viver sem ti.

Tenho saudades de quando te conheci, minha Alma, de como me encantaste com o teu cabelo incandescente e os teus olhos intensos e o teu livro de sonetos e a tua vida imoral.

Ultimamente, noto-te estranha.

E receio-te demasiado.

Alma - Parte VIII

Sonhei que desaparecias.

No meu sonho, via-te nas docas como naquele dia em que fugiste.

Tinhas uma túnica branca colada ao corpo, ensopada pela água, que te fazia assemelhares-te ainda mais a um anjo.

Os seus olhos cintilavam com as lágrimas e estavam vermelhos de choro, mais encarnados do que o teu cabelo. Onde estava aquele olhar que me seduzira? Estavas vazia, minha Alma, tinhas sumido de dentro de ti mesma.

E, de repente, fixaste esse olhar desabitado em mim e os teus lábios murmuraram lentamente um “Odeio-te.” tão intenso como o teu olhar despojado.

Subitamente, fui atingido por uma dor tão avassaladora que caí de joelhos, pensando que a morte não tardaria.

Subitamente, levantou-se um temporal. O vento fustigava-me as faces, as nuvens negras reuniam-se numa conspiração apressada, o ribombar dos trovões fazia tremer a tua figura frágil, a chuva que começara a cair agredia-me constantemente, deitando abaixo as lágrimas caprichosas.

No meio do temporal, a Natureza venceu-me e vi-me no chão, paralisado, a ser torturado e humilhado pelos elementos.

Era tudo tão violentotão violento… tão violento… tão violento… tão violento... tão violento…

Quando tudo acalmou, levantei os olhos do solo e olhei o sítio onde estiveras.

O vazio. Um vazio tão grande como o que eu vira nos teus olhos. Um vazio tão grande como o que se encontrava agora dentro de mim.

A túnica branca no chão.

Tão vazia e sem forma como eu.

A essa túnica faltava-lhe um corpo.

A mim, uma Alma.

Despertei sobressaltado e acordei-te assim que te senti ao meu lado.

Abriste devagar os olhos ensonados e, do meio do teu adormecimento suspiraste “Que se passa, meu Amor?”

E o teu olhar, apesar de confuso, era profundo e tão cheio de ti e do teu afecto que só te pude beijar e embalar de novo no teu sono.

Aquele vazio… não tenciono nunca mais sentir semelhante vazio…

Nem em sonhos.

Alma - Parte VII
Quarta-feira, Agosto 22, 2007

Dou comigo a questionar o meu egoísmo, a ansiar por um qualquer sinal teu de desconforto.

Afinal, roubei-te às ruas sem nada saber, apenas com a certeza do teu olhar, sem te dar qualquer hipótese de recusa.

Não te perguntei se tinhas alguém, outro homem fixo preso a ti: um pai, um namorado, um amigo, um proxeneta, um amante... alguém com quem manterias qualquer laço.

A única referência à família fora feita na justificação do teu nome imaculado. Onde estava essa mulher demente que mencionaras? Num cemitério, num hospício, a seguir a sua própria vida, ignorando a perfeição que se lhe escapara?

Moravas na rua, meu Amor? Tinhas uma casa ou andavas cambaleando de local em local, refugiada quando tinhas um cliente nocturno ou permanecendo ao relento quando o crepúsculo não te trazia ninguém?

Sentes a falta de algo? De alguém?

Serei eu uma besta que te arrastou para o seu covil sem te dar sequer oportunidade de defesa, como um lobo que agarra repentinamente a sua presa?

Não conheço a tua história, minha Alma, mas sei de ti o bastante para te amar incondicionalmente, para te dedicar cada melodia, para te escrever todas estas palavras vãs e patéticas.

Conheço todas as curvas do teu corpo: o sulco das tuas costas, a cova da tua barriga, a forma dos teus seios. Saberia descrever ao pormenor a fragrância do teu perfume, as expressões do teu rosto, os teus gestos e trejeitos. Consigo decompor nos mais variados adjectivos os teus olhos, as tuas sobrancelhas, o teu nariz, as tuas orelhas, a tua boca, os teus lábios, as tuas faces, os teus braços, as tuas pernas, o teu peito, os teus pés, o teu sexo, o teu pescoço, os teus cabelos, as tua mãos e o teu corpo em pleno.

Sei de cor as tuas reacções: como te arrepias quando te beijo a nuca, como coras se te elogio, como ficas extremamente sensível ao toque quando me desejas, como acorres a abraçar-me quando me detenho na minha melancolia.

Tens demasiado de mim em ti e por isso conheço-te melhor do que a mim mesmo.

Por isso me assombras tanto.

Por isso sou egoísta.

Por isso sei que me possuis.

Alma - Parte VI
Quarta-feira, Agosto 15, 2007

Consegui, minha Alma. Após tanto tempo, hoje enfrentei o banco longo de couro que há demasiado me esperava. Senti a sua troça calada, ele, que sabia melhor do que ninguém a longa temporada em que tinha sentido a ausência do meu peso. Passei os dedos devagar pelas curvaturas do verniz negro, sentindo o seu frio acolhedor. Abri a tampa e retirei as páginas de jornal que para lá tinha atirado no auge do meu desespero. Numa delas, amarrotada, lia-se, em letras grandes, após um espaço rasgado que eu presumia que outrora tinha contido o meu nome: CANCELOU A SUA DIGRESSÃO EUROPEIA e em baixo, em letras diminuídas: O artista alega falta de inspiração como motivo deste último capricho. Ah, essa inspiração, essa que eu tanto procurara em vão e me aparece sob a forma de um olhar.

Sentei-me decididamente e o banco, assustado com a minha determinação, fitava-me respeitosamente. Levantei o tampo e acariciei lentamente aquelas formas brancas e pretas, carregando numa e noutra, aqui e ali, como se nunca as tivesse conhecido, ouvindo os leves gemidos que estas proferiam. Os seus suspiros eram os de uma dama, acariciada por quem esperara eternamente.

Num ímpeto, ataquei-as. Os meus dedos eram mais rápidos do que a minha mente, fugiam e voltavam, esmagando ininterruptamente estas teclas, a uma velocidade estonteante. Quando o som atingia os meus ouvidos, era sublime. Oh, como era tão bela aquela arte que eu repudiara!

Mas agora, voltado a ser homem e, antes de tudo, teu amante, sentia o ritmo viajar pelo meu corpo, penetrar no meu sangue, ser bombeado pelo coração através das artérias para todos os músculos, até aos braços, até aos dedos, até quase jorrar sobre aquelas claves de marfim.

Toquei de tudo. Vieram-me à mente as sinfonias de Beethoven e o meu corpo as reproduziu. Pensei nas óperas de Mozart e os meus membros obedeceram. Depois, muitas horas depois, quando já não sabia mais a que génios recorrer, as minhas mãos já tinham instintos próprios, viajando pelas teclas por sua espontânea vontade. As melodias ecoavam, tão harmoniosas como tu, meu Amor, como as formas do teu rosto, tão equilibradas como os detalhes do teu corpo, tão desordenadamente organizadas como só a tua loucura.

Repentinamente, entraste na sala e ficaste a fitar-me, envergonhadamente, talvez sem coragem de interromper o feitiço que parecia ter-me sido lançado. Chamei-te com um gesto, sem parar de tocar, e sentaste-te ao meu lado.

Agora, tudo em mim era música e inspiração, tudo soava aos meus ouvidos como cânticos celestes. Tinha alcançado de novo um estado de graça aos olhos dos Deuses.

Com a minha musa, voltei a ser músico.

Alma - Parte V
Terça-feira, Agosto 14, 2007

Será que te perdi de novo, como no primeiro dia?

Hoje acordei com o silêncio a martelar nos meus ouvidos insistentemente, como que para mostrar-me que algo estava errado.

Tacteei toda a casa, na minha cegueira matinal, perseguindo o teu cheiro ténue.

Perdera-te. Sabia-o no meu íntimo.

Fechei os olhos e deitei-me na cama, naquela posição em que geralmente se deitam os que dormem o derradeiro sono.

Esperei que a angústia viesse e me tornasse novamente prisioneiro daquilo que se tinha tornado o meu Éden.

Esperei que viesse acompanhada da solidão, que tantas vezes me tentara levar à loucura.

Esperei que trouxesse, por fim, o desespero, para que eu ficasse, enfim, prisioneiro de mim mesmo, este desperdício de matéria agora sem qualquer vontade de sobreviver.

A espera não me desesperou.

E a verdade é que nem a angústia, nem a solidão se dignaram a comparecer no baile melancólico que se festejava no meu espírito.

Decidi procurá-las nas ruas, precisava de me poder abandonar à mágoa da tua ausência.

Acabei encontrando-te a ti, minha Alma, quando resolvi embalar-me nas ondas pelágicas.

Estavas aninhada, com a cara no meio dos teus joelhos magros e pálidos. Ia perguntar-te se choravas quando vi a tua cara, manchada de dor, os olhos raiados de sangue, voltada para mim. Eras o retrato da melancolia, da raiva… abracei-te.

Senti o teu corpo de criança. Naquele momento, eras minha filha, o meu rebento, alguém que tinha nascido do meu ventre que, apesar de masculino, tinha a capacidade de gerar. Gostava de ter tido essa honra. A honra de conceber e parir a tua perfeição. Invejei a tua mãe insana, que te carregara e dera esse nome tão perfeito como só tu.

Carreguei-te nos braços, a tua fragilidade a tornar-te vulnerável em mim e a cada passo sentia que eras cada vez mais minha.

Sei que preciso de ti, agora que te encontras adormecida a meu lado. Dás-me conforto, enquanto vejo o luar que entra pela janela e se reflecte na tua pele marmórea. Tens um pequeno sorriso nos lábios, provavelmente sonhas com algo belo, algo que nunca conseguirei sequer imaginar.

Sei que te tenho. E nada mais quero.

ALMA -parte IV
Quinta-feira, Agosto 02, 2007

A crença popular diz que as mulheres ruivas são loucas. Nunca conheci nenhuma que o desmentisse. Nem tu, minha pequena Alma, com toda a tua doçura e leveza, deixas de ser demente. És louca, deveras, demasiado para seres compreendida por mim, comum mortal. Suficientemente louca para fazeres com que te ame cada vez mais, sem controlo nem medida, sem qualquer tipo de rede que me impeça a queda no chão duro, de cada vez que me levas aos píncaros.