Espero que estejas grávida. Já reparei que os teus seios mudaram e o teu estômago não parece tão liso e suave como habitualmente.
Espero que sim. Leio nos teus olhos uma criança que se encontra dentro de ti. É um rapaz, sabes? E vai ser corajoso, como o homem que ajudou a dar-lhe vida. Vejo-o dentro de ti. Ao contrário do que tu gostarias, não tem os meus olhos negros. São pequeninos, como os teus, verdes e misteriosos. Terá aquele olhar cativante que me prendeu a ti. É irrequieto, ele. Esperam-te muitas impaciências e preocupações.
Sim, digo-te esperam-te e não esperam-nos. Não, não é que eu não deseje essa criança, tu é que não queres que a deseje. Partirás, mais cedo ou mais tarde, com o receio de dares ao teu filho um pai como eu. Não te vais dignar a deixar um bilhete. É tipicamente teu não te preocupares, é tipicamente teu fugires sem avisares ninguém.
Como no dia em que o rapaz foi concebido, lembras-te? Desapareceste de casa, tu, que eras tão frágil e procurei-te toda a noite. Fui dar contigo nas docas, com os pés submersos e trouxe-te para casa. Apesar dos teus olhos pedirem desculpa a todo o momento, não conseguiste proferir uma palavra.
O miúdo é bonito. Tem um sorriso engraçado e vai ser bom músico. Pelo menos que para isso os meus genes sirvam. Olha, parece que não vais gastar dinheiro em chupetas... chucha no dedo, ele, nos dedos longos como os meus. Deixar-lhe-ei o meu piano como herança. Por favor, dá-lhe a mesma inspiração que um dia me deste a mim.
Ama-o muito, sim? Ama-o como um dia me amaste a mim, se não ainda mais.
Mas não vejas nele aquilo que vês
E se um dia lhe falares dessa figura, dessa pessoa, o PAI, não lhe digas que me deixaste porque já não me amavas. Diz-lhe que fui um anjo. E que, como todos os anjos, não pude ficar na Terra.
Porque não ficarei. Assim que me abandonares tornar-me-ei realmente num anjo e serei perpetuamente feliz, porque te pude conhecer e tornar a minha vida plena.
Não te sintas culpada quando leres estas linhas, que só receberás depois da tua partida. Tudo estava já destinado a ser assim e, se eu me resignei com esta sorte, tu nada poderias fazer para mudá-la, por muito que me amasses.
Rogo-te apenas um último pedido: chama-lhe Gabriel. Para que também ele seja um anjo.
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Final. E provavelmente o final do blog.

