Será que te perdi de novo, como no primeiro dia?
Hoje acordei com o silêncio a martelar nos meus ouvidos insistentemente, como que para mostrar-me que algo estava errado.
Tacteei toda a casa, na minha cegueira matinal, perseguindo o teu cheiro ténue.
Perdera-te. Sabia-o no meu íntimo.
Fechei os olhos e deitei-me na cama, naquela posição em que geralmente se deitam os que dormem o derradeiro sono.
Esperei que a angústia viesse e me tornasse novamente prisioneiro daquilo que se tinha tornado o meu Éden.
Esperei que viesse acompanhada da solidão, que tantas vezes me tentara levar à loucura.
Esperei que trouxesse, por fim, o desespero, para que eu ficasse, enfim, prisioneiro de mim mesmo, este desperdício de matéria agora sem qualquer vontade de sobreviver.
A espera não me desesperou.
E a verdade é que nem a angústia, nem a solidão se dignaram a comparecer no baile melancólico que se festejava no meu espírito.
Decidi procurá-las nas ruas, precisava de me poder abandonar à mágoa da tua ausência.
Acabei encontrando-te a ti, minha Alma, quando resolvi embalar-me nas ondas pelágicas.
Estavas aninhada, com a cara no meio dos teus joelhos magros e pálidos. Ia perguntar-te se choravas quando vi a tua cara, manchada de dor, os olhos raiados de sangue, voltada para mim. Eras o retrato da melancolia, da raiva… abracei-te.
Senti o teu corpo de criança. Naquele momento, eras minha filha, o meu rebento, alguém que tinha nascido do meu ventre que, apesar de masculino, tinha a capacidade de gerar. Gostava de ter tido essa honra. A honra de conceber e parir a tua perfeição. Invejei a tua mãe insana, que te carregara e dera esse nome tão perfeito como só tu.
Carreguei-te nos braços, a tua fragilidade a tornar-te vulnerável em mim e a cada passo sentia que eras cada vez mais minha.
Sei que preciso de ti, agora que te encontras adormecida a meu lado. Dás-me conforto, enquanto vejo o luar que entra pela janela e se reflecte na tua pele marmórea. Tens um pequeno sorriso nos lábios, provavelmente sonhas com algo belo, algo que nunca conseguirei sequer imaginar.
Sei que te tenho. E nada mais quero.


