Sonhei que desaparecias.
No meu sonho, via-te nas docas como naquele dia em que fugiste.
Tinhas uma túnica branca colada ao corpo, ensopada pela água, que te fazia assemelhares-te ainda mais a um anjo.
Os seus olhos cintilavam com as lágrimas e estavam vermelhos de choro, mais encarnados do que o teu cabelo. Onde estava aquele olhar que me seduzira? Estavas vazia, minha Alma, tinhas sumido de dentro de ti mesma.
E, de repente, fixaste esse olhar desabitado em mim e os teus lábios murmuraram lentamente um “Odeio-te.” tão intenso como o teu olhar despojado.
Subitamente, fui atingido por uma dor tão avassaladora que caí de joelhos, pensando que a morte não tardaria.
Subitamente, levantou-se um temporal. O vento fustigava-me as faces, as nuvens negras reuniam-se numa conspiração apressada, o ribombar dos trovões fazia tremer a tua figura frágil, a chuva que começara a cair agredia-me constantemente, deitando abaixo as lágrimas caprichosas.
No meio do temporal, a Natureza venceu-me e vi-me no chão, paralisado, a ser torturado e humilhado pelos elementos.
Era tudo tão violento… tão violento… tão violento… tão violento… tão violento... tão violento…
Quando tudo acalmou, levantei os olhos do solo e olhei o sítio onde estiveras.
O vazio. Um vazio tão grande como o que eu vira nos teus olhos. Um vazio tão grande como o que se encontrava agora dentro de mim.
A túnica branca no chão.
Tão vazia e sem forma como eu.
A essa túnica faltava-lhe um corpo.
A mim, uma Alma.
Despertei sobressaltado e acordei-te assim que te senti ao meu lado.
Abriste devagar os olhos ensonados e, do meio do teu adormecimento suspiraste “Que se passa, meu Amor?”
E o teu olhar, apesar de confuso, era profundo e tão cheio de ti e do teu afecto que só te pude beijar e embalar de novo no teu sono.
Aquele vazio… não tenciono nunca mais sentir semelhante vazio…
Nem em sonhos.

